No decorrer deste mistério que é a vida, muitas vezes sucede que nos sintamos caminhar na direcção contrária... Na direcção contrária aos nossos princípios, aos nossos valores e mesmo às nossas vontades.
A verdade é que, na realidade pensamos e sentimos que estamos a ir na direcção certa, sentimos que o que fazemos é o que queremos, e culpamos os outros de não serem aquilo que desejámos que fossem, o que idealizamos e, posteriormente, acreditámos que fossem...
Agimos... e depois pensamos, ao invés do contrário, do correcto.
E a isso chamo desencontros.
Desencontros daquilo que somos com aquilo que pensamos ser; desencontros da nossa essência com a imagem que assumimos...
E desses desencontros fazemos amizades, criamos interesses, mas todos trocados. As pessoas acabam por rodear-nos apreciando aquilo que parecemos ser... acabam por não nos conhecer realmente... e acabam por querer de nós o que não lhes queremos dar, e por não nos dar o que realmente queremos.
Desencontros puros e concretos... desencontros de vontades e de disponibilidades... desencontros nascidos do sonho, da idealização, da busca do que não existe... desencontros que criamos para nós próprios e que apenas nós podemos “desmascarar”, “denunciar” e “abolir”... Desencontros que aparentemente nos fazem felizes... e nos fazem sentir bem... contudo... logo percebemos que se trata de uma felicidade pobre, sem raízes, do momento... que rapidamente desaparece. E por isso mesmo, lhes chamo desencontros...
Desencontros do querer com o fazer... da ansiedade com a aparência... da realidade com a verdade... Desencontros cruéis, espontâneos, poderosos, influentes, e muito marcantes...
Desencontros que ao fim e ao cabo não passam de encontros de vontades diferentes, de medos diferentes, de pensamentos diferentes que acabam por se fundir e dar origem a momentos aparentes de sintonia... e só depois, depois... depois é que se pensa e se analisa e se reflecte e se percebe que nada havia de comum – foi apenas mais um desencontro.
Um desencontro malvado que só faz sofrer e identificar a dificuldade que temos em entender os nossos próprios pensamentos, as nossas próprias vontades e a maneira como ansiosamente organizamos as nossas acções de modo a que tudo bata certo...
E nada está certo... tudo está fora do sítio... e tudo nos traz conflitos porque nada é feito como deve ser... e como deve ser significa: como os nossos princípios e os nossos valores mandam... como deve ser significa: ver o que realmente sentimos e pensamos e só depois agir...significa: elevar a pureza dos nossos sentimentos e a clareza dos nossos pensamentos de modo a fazermos aquilo que queremos na verdade e que, por isso mesmo, nos faz bem...
Mas a vida é mesmo assim... temos o instinto da sobrevivência – de decidir no momento o que fazer, porque, no momento, é o que nos fará “sobreviver”... E no fim de contas, o problema é mesmo esse: sobreviver para aferir mais um desencontro...
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.