Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Cansaço...

 

Cansaço de viver o que não se escolhe viver...

Cansaço de sentir o que não se quer sentir...

Cansaço de sorrir quando não se quer sorrir...

Cansaço de fraquejar quando se tem que ser forte...

Cansaço de chorar quando tudo pede para sorrir...

 

acordar, de manhã e não saber o caminho que se quer seguir, saber que o coração pede uma coisa que a razão não nos permite viver...

levantar da cama, e fazer tudo, mecanicamente, obedecendo cegamente à rotina que a razão nos traçou...

passar o dia a fazer aquilo que uma sociedade a passar por uma crise de valores definiu como correcto e aceitável...

não cometer loucuras... e pouco fazer daquilo que realmente se quer fazer...

deitar na cama e pensar em tudo o que foi mais um dia de pesado cansaço...

dormir... e passar momentos agradáveis apenas entre nós... entre o eu adormecido e o eu insconsciente...

 

e acordar novamente... para mais um dia de produção mecânica sem que a fábrica possa avariar...

 

demasiado passivos? (pensamos... )

talvez muito conformados? (sentimos...)

cobardes? inseguros? fracos? loucos?

 

talvez apenas demasiado realistas e observadores... talvez muito conscientes do mundo e da vida... talvez demasiado "videntes" do futuro...

 

cansados, acima de tudo...

desesperados por uma cura para o cansaço... conhecendo perfeitamente os medicamentos, mas sem força nem motivação para os usar...

 

por outro lado... demasiado conhecedores do que queremos, demasiado conscientes do que nos faz bem, demasiado psicólogos de nós próprios, demasiado!...

e muito ansiosos, incrivelmente ansiosos por viver momentos que nos fazem bem, por conseguir esses momentos... a que damos tanto valor e que mais cansados nos fazem ficar... porque quanto mais os valorizamos, mais desvalorizamos tudo o resto...

 

extremos, opostos, separados por um longo caminho, que cada vez se torna maior, aumentando também o esforço que temos que fazer por nos equilibrar...

fazendo acumular cada vez mais o cansaço...

esse cansaço tremendo de viver, não, de morrer!

de morrer em cada rotina, em cada levantar mecânico, em cada dia vivido por viver...

 

 

 

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos

 

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sentido por Anjo da Noite às 21:58
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8 comentários:
De Emanuela a 11 de Outubro de 2007 às 03:17
Como sempre, um belo post, com palavras maravilhosas...Um abraço!


De V.A.D. a 11 de Outubro de 2007 às 14:15
Este sentimento de impotência... A negação do livre arbítrio... Não somos nós a construir o caminho, ele aparece-nos na frente, tentador, sem obstáculos, mas também sem desafios...
E sabermos que somos capazes de delinear o nosso percurso! E sentirmos que falta, simplesmente, a sanidade necessária para o fazer...!
Um texto pleno de profundidade e de verdade...

Um beijo...


De Blackberry a 11 de Outubro de 2007 às 16:40
Poucas são as vezes em que podemos comandar o que vamos fazer, o que vai acontecer na nossa vida, os acontecumentos que nos farão sentir detsa ou daquela maneira.
Acho que aí é que está a beleza das coisas, embora nem sempre possamos ficar felizes com o que se passa connosco. Devemos encarar a vida como um desafio.
Beijinhos *


De Half Heart Half Stone a 21 de Outubro de 2007 às 15:12
São momentos maus aos quais não devemos ceder, porque há sempre luz em nós, mesmo nesses momentos de cansaço de tudo.



De X a 11 de Novembro de 2007 às 15:18
Cansaço que há sobretudo em mim que se nota por dantes não ser assim
Se antes houvesse cansaço ele não seria tão baço.
Amanhã estarei cansada de ter perdido o meu tempo, e quando parar sem nada voltarei a ter alento.

Cansaço.


De V.A.D. a 24 de Dezembro de 2007 às 00:18
Porque o meu ateísmo convicto não impede que me sinta contagiado pelo espírito natalício que paira no ar, sob a forma de sorrisos luminosos e de luzes sorridentes... Porque sinto um enorme carinho por ti, a quem considero uma amiga, não posso deixar de formular o desejo de que esta quadra te traga tudo aquilo que possas desejar. Feliz Natal!

Um beijo, embrulhado num abraço... É este, o meu presente para ti... :-)


De Anjo da Noite a 26 de Dezembro de 2007 às 21:03
O espírito natalício é mesmo algo que está acima de todos nós... que, inexplicável, nos leva a todos a sentir valores como a amizade e o amor de uma forma que não sentimos sempre... por isso um Feliz Natal para ti (um dia depois) e já agora... um 2008 especial, com a realização daqueles sonhos ou desejos que tens no mais profundo do teu ser..

Beijinhos com cheirinho a doces de Natal e um carinho de esperança num ano novo...

P.S. já temos algo de oposto... o teu ateísmo convicto contra a minha saudável crença num Deus que me completa. ;)


De beautiful-life a 23 de Janeiro de 2008 às 22:24
tudo tem soluçao só a morte e que nao...
choramos quando devemos chorar...
sorrimos quando devemos sorrir...

mas cansaça sim

abraço


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