Sexta-feira, 9 de Março de 2007

Não sei quantas almas tenho...

 

“Não sei quantas almas tenho” – assim escreveu Fernando Pessoa...

Atrevo-me a escrever que talvez perceba uma das reflexões a que se referia essa grande alma criadora...

Realmente ao longo da vida vamos dividindo a nossa alma em várias... criamos uma alma para cada contexto que habitamos... e vamo-nos repartindo.

Chegamos a um ponto em que já não sabemos mais onde pertencemos... queremos assumir cada parte da alma que temos, mas é difícil...

Uma alma tão repartida acaba por se desintegrar, e acabamos por ficar perdidos por entre os mil caminhos que traçamos...

E com tantos mundos para viver acabamos por não viver.

Queremos habitá-los todos, se possível ao mesmo tempo... mas eles entram em confronto e alguns contradizem-se... e não conseguimos habitar nenhum...

E nesse emaranhado de caminhos, de viveres, de emoções, vai crescendo um vazio... um vazio que se torna tanto maior quanto a vontade de querer viver em todos os lugares... e acabamos por não viver verdadeiramente em nenhum...

De tão intensamente que queremos viver, torna-se superficial a nossa existência...

De tanta vontade que temos em deixar a nossa marca, acabamos por perder os melhores momentos... Porque corremos, não paramos de andar de um lado para o outro, de querer fazer e viver tudo e sempre...

E acabamos mesmo por não fazer nada, por não viver nada...

A única coisa que se vai acentuando é o vazio – um vazio cá dentro que tanto ansiou a intensidade que lhe permitiu passar dos limites...

Não há retorno, apenas solidão... E agora tudo depende do que fizermos para ultrapassá-la ou para conseguir viver com ela...

E chega-se à derradeira conclusão de que é quando pensamos ter tudo, fazer tudo, conseguir tudo...

É precisamente aí que não temos nada...

 

                                                   (9 de Maio de 2006)


sentido por Anjo da Noite às 00:11
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2 comentários:
De Reaching Insight a 18 de Março de 2007 às 19:28
É dificil explicar o vazio, o vazio das almas, de significados. É dificil porque é vazio. é dificil porque pesa. Porque criamos pseudo-almas, máscaras teatrais que nos permitem representar a vida. Máscaras que não somos nós. que nos fazem sentir a superficie das ondas e não o turbilhão do abismo. Mas é nesse turbilhão que devemos entrar e perceber. Devemos compreender a circularidade do remoinho da nossa vida. De onde veio... para onde se dirige.

Por isso estes blogs fazem falta. Para nos ajudarmos a compreender o mar em que estamos mergulhados.

Parabéns, passa pelo meu (já adicionei o teu link na página)

http://livingatborderland.blogspot.com

Reaching Insight


De V.A.D. a 1 de Abril de 2007 às 23:33
Encruzilhadas, trilhos paralelos ao nosso caminho, obstáculos... Às vezes é preciso parar para consultar o mapa da nossa racionalidade...
Texto magnífico, o teu.

Cumprimentos


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